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riscos_e_rabiscos

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A Minha Vida Não Me Pertence

                             

 

Existem vidas que não pertencem aos seus donos. Que os outros as “roubaram” por algum motivo e que os fizeram perder o poder sobre ela. Às vezes não se vive, sobrevive-se.

 

Conheço alguns casos que me deixam bastante tocada, principalmente porque os conheço de perto. A F. é a protagonista de um desses casos. A pouca vida que tinha, foi-lhe roubada muito nova. De aspecto pouco cuidado e com baixa auto-estima, sempre viveu para os outros: para os pais cruéis, para um irmão tirano e para um sobrinho abandonado.

 

Nunca teve direito a ser feliz, até agora, nem a ter uma vida própria ou um namorado. De repente, caiu-lhe o mundo no colo. Perdeu o emprego que tinha, desleixou-se fisicamente e a dificuldade para encontrar outro emprego tem sido grande.

 

O seu grande coração consegue abarcar uns pais que acham que ela é uma escrava e o filho do irmão que foi abandonado por ambos os pais. O irmão não se interessa pelo filho e nem contribui financeiramente para a sua criação. A F. tem tomado conta do sobrinho como se fosse o filho que ela não tem. E ainda por cima, a criança teve alguns problemas que implicaram gastos extras com médicos especialistas e terapeutas.

 

Sempre que o irmão vai a casa dos pais, ela é escorraçada da mesa. Vai comer para outro lado qualquer, como se fosse um cão. E os pais permitem isto; é a distinção entre filhos na própria casa.

Costuma dizer-se que há quem cuspa no prato onde come. Neste caso é cuspir em cima de quem lhes dá de comer.

 

Outro caso é o da I., uma mulher de 50 anos que deixou de viver a sua vida para tratar de uma irmã doente e de um pai velho.

Namorou muitos anos com um homem que ela amava e com quem pretendia casar e ser feliz na vida. As coisas começaram a correr menos bem e o peso da família a seu cargo começou a ser maior. O namoro acabou, bem como a vida dela.

Resta-lhe o trabalho e ir para casa tomar conta do pai e da irmã. Não tem uma amiga nem ninguém para ir com ela tomar um simples café. E é triste e tocante ouvi-la falar sobre isto, contar a sua própria história.

 

E agora pergunto eu: porque é que a vida tem de ser tão injusta? Quem tem o direito de impedir que se viva a própria vida? Podem dizer que são opções que se fazem mas eu não penso assim. São imposições, isso sim, pois não se tem escolha. Ou melhor, até pode haver escolha entre tomar conta ou abandoná-los à própria sorte, mas quem conseguiria viver de consciência tranquila?

E às tantas, quando nos apercebemos, a nossa vida já não pertence, são os outros que comandam a nossa vida. Vivemos em função dos outros e esquecemo-nos de nós, das nossas necessidades.

 

Tem de ser sair do trabalho e ir a correr para casa tratar da família; não há espaço para tomarmos um café e pormos a conversa em dia com uma amiga (e muitas vezes nem para cultivar amizades!); a liberdade de se dar uma volta e ter o prazer de comprar um livro ou algo que nos dê prazer é inexistente…

 

O importante aqui é não nos esquecermos de nós. Eu sei que é fácil falar mas também temos de fazer um pouco por nós. Não podemos perder o combóio da nossa vida! É que um dia os outros passam para outra dimensão e nós ficamos sozinho. E nessa altura, quem vai cuidar de nós?

 

 

 

Palavras (com)Sentidas

 

Faz-me impressão aquelas pessoas que só olham para o seu próprio umbigo. Que só têm olhos para si mesmos sem, no entanto, se conseguirem ver.

Julgam-se donos da verdade. Que a sua verdade é a que impera, não aceitando opiniões ou conselhos dos outros. Desdenhando as palavras de quem observa de fora. Não sei se por teimosia ou ridícula obstinação.

 

O mundo não gira em volta de nós. Não. Nós somos meras partículas que, conjuntamente, povoamos este mundo. Faz parte do nosso crescimento, enquanto seres humanos e enquanto pessoas, ouvir e partilhar ideias, pensamentos e opiniões.

 

A vida não é fácil e as suas dificuldades surgem-nos abruptamente nos variados caminhos que escolhemos. Acredito que são estas dificuldades e a sua superação que nos trazem maturidade e inteligência para gerir os nossos problemas, os nossos conflitos. Estas são duas armas que nos fazem sair vencedores desta luta quotidiana.

 

Vivemos num mundo em que o egoísmo vigora cada vez mais. Valores como o altruísmo estão quase em extinção, embora muitos bradem aos ventos o seu pseudo-altruismo. Isto apenas reflecte a imagem distorcida que, muitos de nós, têm de si mesmos.

 

Para os nossos problemas findarem, temos que resolver as nossas questões internas primeiro. Há que nos analisarmos, reflectirmos sobre as nossas práticas – que nos afectam a nós e aos que nos rodeiam – e tomarmos decisões acerca daquilo que pode ser melhorado em nós. Não nos abstenhamos de pedir opiniões a outros sobre quem somos. Não é dar parte de fraco. Não tenhamos preconceitos em ouvir e aceitar as opiniões dos outros: são eles que estão distantes e que conseguem ver com clareza o que está menos bem em nós.

 

Não esqueçamos que os nossos actos têm consequência naqueles que nos rodeiam. Na maioria das vezes, os problemas residem em nós e não nos outros. Os conflitos estão do lado de cá e não do lado de lá da fronteira. Não atribuamos culpas ao que as não tem.

As tensões e as preocupações do dia-a-dia têm a capacidade de nos toldarem o nosso poder de raciocínio. Mas nós temos obrigação de ser mais astutos e conseguir ludibriar estes obstáculos. É preciso segurar os nossos ímpetos, ser tolerante para ser tolerado. As forças não estão contra nós: nós é que lhe virámos a direcção!

 

Tentemos ser pessoas melhores: ter a capacidade de ouvir quem nos quer bem, agir com prudência e tolerância, enfrentar os obstáculos com inteligência e frieza e não culpabilizar os outros pelo que está mal em nós!